sábado, 18 de novembro de 2017

CORDEL


O DIABO MORRE DE MEDO
QUE O TEMER VOLTE PRA LÁ

Pedro Paulo Paulino

A alma de um paneleiro
Que morreu no Ceará,
Numa sessão outro dia
Conseguiu baixar por cá
E revelou um segredo:
O diabo morre de medo
Que o Temer volte pra lá.

Esse coitado morreu
Ao fazer um panelaço
Vestindo verde e amarelo
Torcendo pelo fracasso,
Totalmente alienado,
Findou sendo atropelado
Por um caminhão de aço.

Ali mesmo no local
No mesmo instante morreu.
Está perto de dois anos
Que o fato aconteceu.
Agora, em algum terreiro
A alma do paneleiro
De repente apareceu.

Paneleiro aqui citado,
O leitor preste atenção,
Não se trata do sujeito
De honrada profissão,
Cidadão trabalhador,
Fabricante ou vendedor
De panela pra fogão.

O paneleiro em questão
É aquele que de dia
Ou de noite vai pra rua
Com a cabeça vazia
Torcer pelo ‘tenebroso’,
Pelo ‘das neves’ seboso,
Bolsonaro e companhia.

Pois bem, esse paneleiro
Que baixou numa sessão
Contou que lá no inferno
Tem duas tropas de cão
Dia e noite se alternando,
Pelas almas esperando
De político ladrão.

Falou que a grande ameaça
Que ronda aquele lugar
E preocupa o capeta
Que vive a se lastimar
Numa tremenda agonia,
É que Temer volte um dia
Pra no inferno mandar.

 “Voltar como? Por acaso
Ele por lá já morou?”
Curioso, um cidadão
Da plateia perguntou.
E a alma, tranquilamente,
Perante um grupo de gente
A falar continuou:

 “Morou, sim. Do mesmo jeito,
Praticando só maldade,
Mentindo e armando truques
E cheio de falsidade,
Com discurso demagogo.
O diabo comeu foi fogo
Na sua propriedade.

Temer, lá, se apresentava
Trajado no mesmo terno,
Querendo mandar em tudo,
Como está no seu caderno.
Matando a democracia,
Queria por que queria
Privatizar o inferno.”

 “Como pôde ele mandar
Lá naquela região?”
Respondeu o paneleiro:
“Amigo, preste atenção,
Que a resposta já vem:
Deu um golpe lá também,
Tomando o trono do cão.

De modo que no inferno,
Segundo eu ouvi contar,
Se já era muito ruim,
Só fez mesmo piorar.
Fracassou de cabo a rabo
E não tinha mais um diabo
Que quisesse lá morar.

Assim como fez aqui,
Por lá, Temer fez também,
Ou talvez até pior:
fez o diabo de refém,
Com seu berro de mandão.
Trabalhava todo cão
Sem receber um vintém.

Os demônios principais,
Outro dia reunidos
Opinavam que o Temer
Foi o pior dos bandidos:
Vendeu por preço irrisório
Metade do purgatório
Para os Estados Unidos.

Naquele dia em que ele
De repente adoeceu,
O inferno por completo
De pavor estremeceu.
É tanto, que depois desta
O diabo deu uma festa
Porque Temer não morreu.”

Assim disse o paneleiro
E depois se evaporou.
Todo mundo que o ouviu
Muito espantado ficou
Interrogando entre si:
“O presidente daqui
Até no cão já mandou?!”

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CORDEL

A escritora cearense Rachel de Queiroz nasceu em 17 de novembro de 1910, em Fortaleza. Em 2010, por ocasião do seu centenário, publiquei este cordel, premiado em concurso nacional do Ministério da Cultura.


 O CORDEL NO CENTENÁRIO
DA ESCRITORA RACHEL


Pedro Paulo Paulino

Rachel de Queiroz nasceu
No Estado do Ceará,
Filha de família ilustre
Dos sertões de Quixadá.
Seu nome entrou para história,
Das letras é nossa glória,
Na ABL hoje está.

Na Academia de Letras
Rachel de Queiroz fulgura.
Foi a primeira mulher,
Com a vocação mais pura,
A subir o pedestal
Pra se tornar imortal
Na nossa Literatura.

Mil novecentos e dez
Findou cheio de alegria,
Pois foi no mês de novembro
(E dezessete era o dia)
Que com total realeza
Na Capital Fortaleza
Rachel de Queiroz nascia.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

SONETO

É DEODORO, QUE PASSA...*

Pedro Paulo Paulino

Rio de Janeiro. Em cada esquina e praça,
Momentos antes da Proclamação,
Impera um clima de conturbação,
Boato, burburinho e ameaça.

De súbito, perante a grande massa,
Surge imponente o vulto de um varão
Montado em seu cavalo, espada a mão:
É Deodoro, o Marechal, que passa...

Rio de Janeiro. Os anos são passados.
Restos mortais do antigo Marechal
São para outro sepulcro trasladados,

E as cinzas que sobraram da carcaça
Levadas vão em surdo funeral:
É Deodoro, o Marechal, que passa...

_________
*Adaptado de uma crônica do escritor maranhense Humberto de Campos (1886-1934). Mantido o título. 

domingo, 12 de novembro de 2017

SONETO

12 de novembro: 113 anos de morte de Augusto dos Anjos.



AUGUSTO DOS ANJOS

Pedro Paulo Paulino 

Quando Augusto dos Anjos feneceu,
Contando só três décadas de idade,
Nossas letras choraram de saudade
E a própria morte até se entristeceu.

Deixou como maior herança o «EU»
Que o consagrou para imortalidade,
Pois seus versos transmitem, na verdade,
A sensação de que ele não morreu.

A doze de novembro um séc'lo faz
Que Augusto, para sempre, dorme em paz,
Mas entre os homens é seu nome infindo:

Por mais que o tempo eternamente passe,
É como se ele apenas descansasse
Debaixo do seu velho tamarindo...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

SONETO

NOTÍCIAS DO BRASIL

Pedro Paulo Paulino

Brasil está enfermo gravemente.
Maior país da América Latina
À míngua morre, sem uma vacina,
Nas mãos de um ordinário delinquente.

Vitimado de um mal que contamina
Seus órgãos todos virulentamente,
Aos poucos foi passando de doente
Para um estado de total ruína.

Prostrado sobre o leito de UTI,
Já não resiste mais ao bisturi
E vai penosamente definhando...

Apenas os seus olhos moribundos
A custo enxergam os ladrões imundos
Que estão seu patrimônio espedaçando.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

SONETO

VIVOS MORTOS

Pedro Paulo Paulino

Os mortos são também os navegantes
Da embarcação na qual nós viajamos.
Somente ainda nós não alcançamos
O paradeiro a que chegaram antes.

Às vezes, amargamos por instantes
Profunda nostalgia e lamentamos
Que com o tempo todos nós ficamos,
Dos entes que se foram, mais distantes...

Que ledo engano! Errônea fantasia
Pensar assim em relação àqueles
Que já partiram para a campa fria,

Pois nós marchamos sempre rumo a eles;
E à proporção que passa mais um dia,
Vamos ficando é bem mais perto deles.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

SONETO

VIDA... MORTE...

Pedro Paulo Paulino

A vida é uma pequena intermitência
No Nada indescritível de onde vimos;
Parêntese no qual nós possuímos
Aquilo que chamamos consciência.

Por mais que nos opomos, concluímos
Que no breve decurso da existência
Há um ponto final, sem reticência,
E de retorno ao Nada nós partimos.

Pois sendo a vida esse fugaz momento,
E a morte, seu eterno complemento,
Entre uma coisa e outra ninguém há de

Contradizer Voltaire neste conceito:
“Aos vivos, nós devemos o respeito;
Aos mortos, nós devemos a verdade”.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

DIA DO SACI


O SACI NÃO SE APOSENTA,
MESMO SENDO UM MUTILADO

Pedro Paulo Paulino

O Saci é quem governa
A floresta, a natureza.
Essa missão, com certeza,
Será para sempre eterna.
Embora falte uma perna
E por lei seja amparado,
Se ele for aposentado
O folclore se arrebenta:
O Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

Estando embora na ativa,
Já tem bruxa por aí
Querendo que do Saci
Apague-se a lenda viva!
Mas, da cultura nativa
Jamais será apagado
Esse moleque adorado
Que o folclore representa:
O Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

Pulando na perna só,
Essa amável criatura
Já fazia travessura
Para minha tetravó.
Na caatinga entre o cipó
O Saci é encontrado,
Assim como em todo estado
Sua lenda se sustenta:
O Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

Fugindo um pouco do mato
Foi para a literatura
Como importante figura
Para Monteiro Lobato.
Não vamos deixar barato
O Saci ameaçado
De perder o seu reinado
Para uma bruxa nojenta,
Pois Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

CORDEL


O PINTO DO PRESIDENTE
ACABOU PAGANDO O PATO

Pedro Paulo Paulino

No Distrito Federal,
O mundo está revirado,
Tem um prato para cima
E tem um prato emborcado.
Contra o povo brasileiro,
Todo dia, o ano inteiro,
Cada prato está lotado.

Lotado de delinquentes
Da nossa democracia
Que levam tudo de eito,
Com as leis à revelia.
A Capital Federal
Se transformou, afinal,
No reino da putaria.

Na quarta-feira passada,
No meio do triste ato
De uma votação imunda,
Houve de repente um fato,
Para ninguém comovente:
O pinto do presidente
Acabou pagando o pato.

O xerife Tenebroso
Acompanhava entretido
Os discursos dos seus pares,
Cada qual o mais bandido;
Sentiu a coisa apertar
E quando foi urinar,
Seu pinto estava entupido.

Naquele grande sufoco,
Tentava, não conseguia.
Espremeu-se, fez esforço,
Mas a coisa não saía.
E quanto mais pelejava
E mais o tempo passava
Mais o seu pinto entupia.

O Tenebroso esqueceu
Seu autoritário estilo,
E começou a chamar
Pessoas para acudi-lo.
Foi levado à enfermaria,
Mas quem era que queria
Chegar nem perto daquilo.

Para discutir o caso,
Fizeram mesa redonda.
Pra salvar o Tenebroso
Daquela coisa hedionda,
Foi chegada a conclusão
De que melhor solução
Era lhe meter a sonda.

Foi de maneira forçada
Que resolveu consentir.
Um torçal logo trouxeram,
Mas quem quis se garantir,
Num momento como aquele,
De pegar a ‘coisa’ dele
Para a sonda introduzir?!

Tenebroso então falou,
Com seu jeito autoritário:
“Corram logo e vão chamar
Um correligionário
Que me salve desse aperto;
Os outros, conforme acerto,
Me salvam lá no plenário.

Chamem o Valdir Colatto,
Ou por outra, Alceu Moreira;
 Chamem o José Fogaça,
Ou mesmo Mauro Pereira.
E se tiver ocupado,
Chamem Simone Morgado
Ou o Ronaldo Nogueira.

Chamem lá do Ceará
Deputado Genecias,
O Ronaldo e o Aníbal,
Que são minhas companhias;
Chamem o Danilo Forte,
Pois com eles, tenho sorte
De sair das agonias;

Chamem o Gomes de Matos,
Chamem Gorete Pereira,
Moses e Domingos Neto,
Chamem Vaidon  Oliveira
Ou deputado Macedo
Pra desentupir sem medo
A minha velha torneira!”.

Enquanto lá no plenário
Pegava fogo a “prissiga”
Da corja de deputados
De todos nós inimiga,
Lá fora, até o “tinhoso”
Ajudava o Tenebroso
Esvaziar a bexiga.

A bexiga esvaziou-se,
Mas o Brasil segue cheio
De pilantras desonestos,
Ladrões do dinheiro alheio
Que roubando nosso erário
Deixa o povo e o operário
Sofrendo grande aperreio.

Urina presa tem jeito,
Embora provoque dor.
A medicina, faz tempo,
Corrige esse dissabor.
Não tem jeito verdadeiro
É o povo brasileiro
Preso à mão de um ditador.

A ninguém nunca desejo
Que mal algum aconteça,
Mas o senhor Tenebroso
Duma coisa não esqueça,
Pois conforme o que pressinto,
Nunca mais seu velho pinto
Vai levantar a cabeça.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017


HUMBERTO DE CAMPOS – 131 ANOS

Pedro Paulo Paulino

Obra escolhida de Humberto de Campos,
lançada em 1983 pela Opus Editora Ltda
No dia 25 de outubro de 1886 nascia Humberto de Campos Veras, na então cidade maranhense de Miritiba. Autodidata, foi poeta, contista e crítico literário. Mas se destacou como o cronista mais lido na década de 1920 e começo dos anos 30, na imprensa do Rio de Janeiro, para onde mudou-se depois de trabalhar como caixeiro na bodega de um tio, na Parnaíba, Piauí. Menino pobre, órfão de pai aos seis anos, descobriu o talento literário ainda em sua pequena Miritiba que hoje se chama Humberto de Campos. Sua obra completa inclui crônicas, contos, poesia e seu livro de memórias. Aos 33 anos entrou para a Academia Brasileira de Letras. Também com o pseudônimo de Conselheiro XX, assinou escritos que atraíram grande público. Humberto de Campos foi um dos escritores brasileiros mais lidos em seu tempo e suas obras tornaram-se presentes nas bibliotecas de todo o País, algumas sendo adotadas em escolas públicas. Sua notável popularidade e identificação com o espírito nacionalista consagraram-no também na política, elegendo-se deputado federal pelo Maranhão. O estilo conservador de escrever, embora numa linguagem bem acessível e dinâmica, entrou em confronto com os ditames da Semana de Arte Moderna de 1922; mesmo assim, conseguiu romper a fronteira entre o velho e o novo na literatura feita no Brasil, e por isso seu nome ainda hoje encontra visibilidade. Segundo Humberto de Campos Filho, que a exemplo do pai seguiu a carreira jornalística, ele foi um homem que sempre viveu modestamente e inteiramente dedicado à vida literária. Essa revelação está na obra escolhida de Humberto de Campos, lançada em 1983 pela Opus Editora Ltda., composta de dez dos 40 volumes da bibliografia completa do escritor maranhense. No primeiro volume, Poesias completas, Humberto de Campos Filho relata detalhes da vida do pai, reconhecido largamente em seu tempo, pelo público e pela crítica, mas em constante preocupação com a notoriedade no futuro. “Eu queria a vida para consagrá-la principalmente às minhas letras; à realização de uma obra que trazia no pensamento. Isso tornou-se impossível. E minhas horas são consumidas, todas, na conquista do pão de cada dia”, desabafa Humberto de Campos em seu Diário secreto. Em 1986, foi lançado pela Universidade Federal Fluminense – EDUFF, o livro O miolo e o pão, em homenagem ao centenário de Humberto de Campos, com estudo crítico e antologia do autor de O monstro e outros contos e um dos artistas nordestinos mais populares da literatura brasileira. O título do livro alude a outra citação de Humberto: “Passou a vida a insistir no comércio mais idiota deste mundo: vendia miolo da cabeça para comprar miolo de pão” (Os Párias). Humberto de Campos morreu no dia cinco de dezembro de 1934, aos 48 anos, deixando mulher e três filhos. Durante muito tempo lutou contra uma doença rara chamada acromegalia, um distúrbio na glândula hipófise. Problemas relacionados a cálculos na bexiga, no entanto, foram a causa de sua morte. Depois de uma operação para retirada dos cálculos, Humberto de Campos passou cerca de um ano urinando através de uma sonda implantada abaixo do umbigo. Depois desse período, uma nova cirurgia foi necessária para retirada da sonda. O pavor da anestesia raquidiana, que o já  traumatizara, fê-lo exigir do médico uma anestesia geral, a despeito dos riscos que corria. Morreu de um ataque do coração enquanto eram feitos os pontos da última sutura. Enxergou com profunda sensibilidade a vida, sendo-lhe poupado ver a própria morte.

CURIOSIDADES DE HUMBERTO DE CAMPOS

♦ Ainda existe na cidade piauiense de Parnaíba o cajueiro centenário plantado por Humberto de Campos e que inspirou uma de suas crônicas mais conhecidas.

♦ A biblioteca de Humberto de Campos, com alguns milhares de volumes, foi vendida pela família do escritor para o governo do Estado do Maranhão, por 40 contos.

♦ Ainda depois de morto, Humberto de Campos foi motivo de grande polêmica. Por volta de 1941, novas publicações assinadas por ele, como “psicografadas” por Chico Xavier e editadas pela Federação Espírita do Rio de Janeiro, ganharam grande popularidade em todo o Brasil, fazendo com que a família do escritor movesse uma ação judicial reivindicando direitos autorais. A família perdeu a causa.

♦ No final dos anos 50, o nome de Humberto de Campos é estampado novamente na imprensa. O anúncio da publicação do seu Diário secreto causa alvoroço no meio intelectual brasileiro. Mesmo assim, seu diário é publicado em fascículos pela revista O Cruzeiro e depois editado em dois volumes.

♦ Na edição de 3 de setembro de 2008, a revista Veja trazia em sua coluna “Radar”, assinada pelo jornalista Lauro Jardim, a seguinte nota: “VENDE-SE UM FARDÃO - Serão leiloados nos próximos dias no Rio de Janeiro o fardão e o espadim da Academia Brasileira de Letras usados pelo escritor maranhense Humberto de Campos. O lance mínimo é de 30. 000 reais – aliás, o mesmo preço de um fardão novinho em folha. A vestimenta tem quase noventa anos e estava guardada desde 1934, quando Campos morreu. Quem tiver a intenção de desfilar por aí fantasiado de imortal não deve perder a oportunidade. Não é todo dia que se consegue um fardão original, até porque a maioria dos acadêmicos é enterrada com seus trajes de gala”.

♦♦♦

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RODOLFO TEÓFILO

Humberto de Campos

QUANDO eu conheci Rodolfo Teófilo, em 1906, tinha ele já sua grande barba toda grisalha. Era um homem alto, magro, de rosto fino, que a barba tornava mais longo, e que vivia enrolado em uma sobrecasaca negra, abotoada de cima a baixo. Fantasiado assim de guarda-chuva, trazia, para evitar equívocos, outro guarda-chuva na mão. E eu confesso que, desde que o vi pela primeira vez, senti uma comovida simpatia por aquele homem, ao mesmo tempo que recebia uma impressão funda, e segura, da sua capacidade de sonho e de fé. Um homem que anda de guarda-chuva no Ceará, dispõe, necessariamente, de uma grande força de imaginação.
Era isso nos dias mais ingratos da existência do romancista. Dividido em dois agrupamentos políticos, o Ceará fervia, desde as praias do mar até às chapadas do Cariri, de entusiasmo e de indignação partidárias. As penas dos jornalistas ciscavam, no papel branco dos jornais, pondo à superfície dele, com as paixões próprias, os vícios ou defeitos dos adversários. Sem descer às discussões pela imprensa, Rodolfo Teófilo havia ficado, como eleitor, em oposição ao governo do Estado. O melhor governo é, sempre, no Brasil, o do partido que vai subir. E Rodolfo Teófilo era brasileiro e possuía, como todo brasileiro, espírito messiânico.
Essa definição de atitude custou, todavia, caro, ao velho sonhador. Lente de História no Liceu Cearense, foi removido imediatamente, como castigo, para a cadeira de grego. Debalde protestou ele contra essa confusão, alegando, como coautor da “Bo­tânica Amorosa”, que as raízes gregas nada têm com as dos vegetais. O governo manteve o ato. E Rodolfo Teófilo, que não sabia grego, foi demitido por abandono do cargo, exposto a todas as conseqüências de uma pobreza honrada, corajosa e inflexível.
Para viver, foi fabricar, então, na sua chácara de Cauípe, vinho de caju, cuja fermentação e filtragem aperfeiçoou, e que tomou, no comércio, a denominação de “néctar”. Aquela abelha não fabricava senão mel. Doce de alma e doce de coração, escolheu, para explorar, a mais doce e amável das indústrias. Não sabia grego, mas era um irmão de Aristeu, isto é, do primeiro grego que domesticou abelhas.
Não foi, todavia, na sua indústria, mas no seu apostolado, que o governo cearense passou a atacar o venerando e suave trabalhador. Toda a vez que a seca se manifesta­va no sertão, a companheira da fome era, sempre, a varíola. Farmacêutico, Rodolfo Teófilo chamou a atenção das autoridades sanitárias para a vacinação intensa. A ciência provinciana não admite, porém, insinuações. Só os oposicionistas fazem observações públicas ao governo ou aos seus auxiliares. E Rodolfo Teófilo passou a figurar no índex governamental.
Seu coração não se conformava, entretanto, com a devastação que a varíola fazia no Ceará. Menos para afrontar o governo do que para substituí-lo no exercício de um dever caprichoso, passou a vacinar, por conta própria, nas vizinhanças da capital. Adquiria vitelos, e fabricava uma das melhores vacinas do Brasil, a qual era distribuída gratuitamente pelos médicos locais que a pediam, ou enviada, independente de remuneração, para os Estados vizinhos. O governo do Estado multou-lhe o laboratório. E como se isso não bastasse, o órgão oficial do partido governista fazia contra a vacina utilizada pelo filantropo a mais terrível e desumana das guerras, aconselhando a população que a não aceitasse, porque era venenosa e causava a morte!
Não obstante essa campanha, Rodolfo Teófilo não esmorecia. Com a sua voz mansa, os seus olhos bons, e a sua derramada barba de apóstolo, andava de casa em casa, pedindo licença para premunir a família contra a epidemia reinante. Vacinada a maior parte da população da capital, passou ele, com a mesma dedicação, a exercer o sacerdócio entre a gente do interior. Escanchado em um burro, e levando como bagagem científica apenas a caixa de soro e alguns remédios suplementares, atirou-se para os municípios mais próximos solicitando, de choça em choça, de fazenda em fazenda, de povoado em povoado, permissão para vacinar as pessoas que ali moravam. Os caboclos o recebiam, quase sempre, com acentuada desconfiança, quase com hostilidade. E foi, então, quando, segundo se contava no sertão, Rodolfo Teófilo inventou uma linda história cristã, que teria repetido mil vezes, nos terreiros das cabanas e nos alpendres das casas de campo. Mais tarde, ele contestou, em carta que me escreveu, a paternidade do conto. A defesa foi, porém, tão frágil que me pareceu uma confirmação.
“Há muitos anos, — começava, foi uma grande cidade, capital de um grande reino, atacada pelas bexigas, que mataram quase toda a população. Dentro de pouco tempo estava a cidade quase deserta. Quem não morreu, fugiu, abandonando casa, fazenda, riquezas, tudo. Havia, entretanto, entre o povo, um homem muito bom, que, tendo perdido já todos os parentes, resolveu deixar a terra empestada. Arrumou a sua roupa, e partiu. Assim, porém, que chegou fora da cidade, encontrou-se com uma mulher muito formosa, que puxava uma vaca toda preta, seguida de um bezerrinho, alvo como o algodão. A mulher, ao vê-lo, perguntou-lhe por que fugia. Como ele lhe explicasse, ela lhe pôs a mão no ombro, e disse: ‘Não tenhas medo, meu filho. Volta à cidade com esta vaca e este bezerrinho. Quando chegares lá, tira uma gota do seu leite e, com ele, faze três cruzes em cada braço, em todas as pessoas que se quiserem salvar. Toda aquela em quem fizeres isso não será atacada pela peste’. Aí, a mulher, que não era outra senão Nossa Senhora, desapareceu, enquanto que o fugitivo regressava ao ponto de partida, onde fez o que ela lhe havia dito, e salvou todo o resto do povo. Essa vaquinha — acrescentava o narrador, — teve depois outras crias, e é do sangue e do leite delas que eu trago algumas gotas, para salvar das bexigas os que são filhos de Nossa Senhora.”
O sertanejo, ainda desconfiado do homem, mas confiando em Deus, entregava prontamente o braço, e o braço dos filhos, e o da mulher. E foi por esse meio que Rodolfo Teófilo, sozinho, extinguiu a varíola, até hoje, no interior do Ceará.
E esse benemérito acaba de morrer... Há um homem de menos na terra. Mas há, a esta hora, — se o céu existe, — mais um justo entre os justos. (Destinos)

"

domingo, 8 de outubro de 2017

CORDEL

Meu amigo Assis Vidal estaria aniversariando hoje (8/10). Mas, no último dia 26 de agosto, ele partiu para o infinito, deixando no seu círculo de amizades, em Canindé, uma lacuna impreenchível. Em mim, particularmente, permanece uma saudade proporcional à grandeza da amizade que compartilhamos a vida toda, sem entre nós jamais haver qualquer sombra de desentendimento. Amigo sincero, companhia leal, nossa prosa ia do futebol à ciência, da piada ao comentário
de uma leitura, um filme etc.
Em tributo à sua memória, um cordel fala um pouco do seu convívio e personalidade.

ADEUS PARA ASSIS VIDAL

Pedro Paulo Paulino

Quando um grande amigo parte,
A gente nem acredita
Que de uma hora pra outra
A morte faça visita
E leve assim tão veloz
Um irmão que deixa em nós
Saudade quase infinita.

Dia 26 de agosto,
Nosso amigo Assis Vidal,
Canindeense dos bons,
Humilde, simples, leal,
Sem chance de despedida
Deixou de vez essa vida
Para a viagem final.

Foi mais um bom coração
Que o Canindé perdeu,
Deixando boas lembranças
Na cidade onde viveu,
Onde fez tanta amizade,
Onde brincou à vontade
E onde em casa morreu.

SONETO

MEUS CAMPOS

Pedro Paulo Paulino

Debaixo deste céu azul e claro,
No meio do sertão, o sol aponta
Um pequenino nicho onde desponta
A Vila Campos, meu torrão tão caro.

De tanta luz, a vila vive tonta,
Mas em compensação recebe o amparo
Da paz e do sossego (algo tão raro!)
Da natureza amiga além da conta.

Na mata, o canto grave das cauãs;
Em volta o permanente desfilar
Das serras de mãos dadas como irmãs;

E as joias preciosas do lugar:
Se é dia, brilha o ouro das manhãs;
Se é noite, brilha a prata do luar.

sábado, 7 de outubro de 2017

SONETO

SONETO DE PESAR

Pedro Paulo Paulino

Las Vegas, Janaúba... Pode o mal
Tornar-se tão feroz e desumano,
Causando a tantas vidas tanto dano
E tanto horror, de forma tão brutal?!

O que provoca – explique-se! – afinal,
No coração um ódio tão tirano
Que leva alguém a praticar um plano
Inigualavelmente bestial?!

Por causa da torpeza que devora
Os corações das almas vis e cegas
Do mal que pega o homem e o derruba,

O mundo inteiro, pesaroso, chora
As vítimas das balas, em Las Vegas;
As vítimas do fogo, em Janaúba.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

CRÔNICA


O OUTRO LADO DA FESTA

Pedro Paulo Paulino

Nos dez dias em que comemora seu santo padroeiro, a cidade de Canindé multiplica-se. São vários Canindés que se clonam ocupando o mesmo espaço. A mutação é abrupta e completa. Enxame de gente que surge de hora para outra, compartilhando com a população nativa ruas, praças, becos e avenidas. Fenômeno humano presente em forma de multidão. O centro comercial da cidade transforma-se num gigantesco empório a céu aberto. O trânsito resigna-se, cedendo vias centrais aos vendedores efêmeros.
Montões dos mais diversos tipos de objetos expostos à venda no coração da cidade. Sob o sol escaldante, a distância avista-se o rutilar dos alumínios dos camelôs. Pilhas de roupas, calçados, CDs, sacolas, plásticos, miudezas, quinquilharias e as indispensáveis bugigangas de marca vulgarmente chinesa. Rampas de abacaxis trazidos da Paraíba. Cheiro de comida quente, de garapa de cana-de-açúcar, aromas que se misturam na atmosfera borbulhante de pessoas.
Nos labirintos formados pelas vendas improvisadas em calçadas e no meio da rua, transeuntes espremem-se num vaivém interminável. Vozerio, sons eletrônicos, o reclame alto do vendedor volante, a buzina, o apito... O tumulto, contudo, faz parte do cenário alegre da festa.
A miscigenação cultural tem seu acento na praça e produz num leque de novidades: o tecelão ao vivo em sua máquina artesanal, o músico andino e sua flauta de pã, a estátua viva de Lampião em pacata convivência com a estátua viva de um anjo. Pedintes. Romeiros em hábitos marrons.
E eis que de súbito, no meio de toda essa diversidade de coisas, esbarra-se num personagem diferente, prosaico, remanescente de uma espécie em extinção: o vendedor ambulante de livros.
Nazareno Silva tem 70 anos, 40 de vendedor de livros e 20 de festa do Canindé. Numa calçada central, ele expõe o acervo: volumes usados, de literatura, história e também livros técnicos. Mossoroense, Nazareno há duas décadas comparece aos festejos, em seu automóvel abarrotado de livros por todo canto. Diz que já fez amigos e tem clientes regulares na cidade, onde permanece do começo ao fim da festa.
No centro da algazarra e da folia do povo, competindo com a acirrada e desleal oferta de produtos bem mais populares, em plena era da internet na palma da mão, Nazareno Silva, com seu acervo andante de obras de Alencar, Machado de Assis, Lima Barreto e outros nomes da literatura, encarna, com persistência heroica, o indefectível Quixote da festa.