domingo, 17 de setembro de 2017

SONETO

MANHÃ DE LUZ

Pedro Paulo Paulino

Manhã resplandecente, ensolarada!
No mar azul do céu irradiante,
Apenas uma nuvem branca e errante,
Igual a um peixe solitário nada.

Passou depressa a doce madrugada,
Varrida pelo sol, com seu rompante.
Um eco do silêncio desse instante
É tudo quanto resta – ou quase nada.

O vento buliçoso sopra e alegra
E agarra as folhas como em caracol.
Pequenas borboletas bailam pelas

Manhãs assim de luz – e como regra,
Lá no infinito azul somente o sol
Ocupa o lar sagrado das estrelas.

sábado, 16 de setembro de 2017

SONETO

FURACÕES

Pedro Paulo Paulino

Na América do Norte, uma tormenta
Nasce no mar e avança ao continente
Arremessando tudo à sua frente,
Da forma mais estúpida e violenta.

A América Central também enfrenta
A fúria incontrolável, inclemente,
Do furacão que surge de repente
E cresce de maneira truculenta.

Na América do Sul, o vendaval
Nasce, por sua vez, no mar de bruma
E lama do Distrito Federal:

Um furacão de escândalos gigante
Que sobre o solo pátrio se avoluma,
Sem dar uma só trégua um só instante.

sábado, 9 de setembro de 2017

SONETO


SONETO DE PARABÉNS

Pedro Paulo Paulino

Feliz aniversário, amiga Lia!
Com vinho, com abraços e presentes.
Um brinde, dentre os mais resplandecentes,
À tua incomparável alegria!

Que seja o bem a tua companhia
Em todos os momentos existentes.
Colhas o fruto amável das sementes
Da pura paz que plantas todo dia.

E que esta data seja um renascer
De muitas emoções e bons astrais;
De tantas alegrias no viver!

Novas conquistas! Nova estrada aberta!
Perdão por minha ausência uma vez mais,
E aceites estas rimas como oferta...

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

SONETO

PÁTRIA ENLUTADA

Pedro Paulo Paulino

Verde e amarelo, as cores do Brasil,
Agora estão cinzentas, desbotadas.
Na bandeira, as estrelas apagadas;
E preto no lugar do azul de anil.

O lema nacional, breve e sutil,
Teve as duas palavras ultrajadas:
Qual ordem? Qual progresso? Estão minadas
Do povo as forças – antes varonil.

A pátria sofre e aos poucos agoniza,
Como um gigante tomba lentamente,
Nenhum remédio o cancro lhe ameniza...

O povo, chacinado pela canga,
Um grito solta, aflito e comovente,
Mais alto do que o Grito do Ipiranga...

domingo, 3 de setembro de 2017

SONETO DE ANIVERSÁRIO

Pedro Paulo Paulino

Um ano mais conquisto hoje de vida,
Neste três de setembro benfazejo.
E no silêncio amigo, é que festejo
A estrada até agora percorrida.

Uma escalada a mais ora vencida,
E nova marcha à frente eu antevejo.
Por ter o dom da vida, em todo ensejo,
Minh’alma tenho sempre agradecida.

No tempo, segue a vida deslizando,
Tal como um peixe vai, devagarinho,
Buscando novas águas, nova fonte:

Tormentas vê surgir, de vez em quando,
Por todos esses mares do caminho,
Mas tendo sempre à frente um horizonte.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

SONETO


ADEUS PARA UM AMIGO*

Pedro Paulo Paulino

E lá se vai mais um amigo embora,
No bonde pontual da eternidade,
Deixando a dor nos olhos de quem chora,
E muito mais, no coração, saudade.

Seu riso, na retina, se demora,
Qual marca registrada de amizade.
Sua presença se tornou outrora,
Mas os seus rastros ficam na cidade.

Em cada canto, a sombra do seu gesto,
Como um retrato vivo continua;
Em cada esquina, aquele aceno antigo...

Cada lembrança é como um manifesto
Bradando de saudade em plena rua,
Quando se vai um verdadeiro amigo.


*Homenagem do autor à memória do canindeense Assis Vidal (1953-2017). 

sexta-feira, 7 de julho de 2017

SONETO

UM AMIGO

Pedro Paulo Paulino

Desperta-me com teu cantar, amigo –
Pássaro livre, das manhãs em festa!
Segue fazendo assim tua seresta
No galho que é teu palco e teu abrigo.

A tua voz e o teu cantar bendigo,
Pois o teu canto, na alvorada, empresta
Mais alegria e nova vida a esta
Velha vivenda de um sonhar antigo.

Canta mais alto, passarinho, canta!
Que tudo em volta escuta o teu clarim,
E o sol, te ouvindo, logo se levanta...

Canta, porque cantar é tua sina,
E pouca coisa há tão bonita, enfim,
Quanto o teu canto, ó Galo-de-Campina!

quinta-feira, 29 de junho de 2017


AOS PÉS DE GLAUCO MATTOSO


Pedro Paulo Paulino 
Recebo mais um livro do poeta Glauco Mattoso. Desta feita, o título é: “AOS PÉS DAS LETRAS – Antologia podólotra da literatura brasileira”. Organizada pelo próprio Glauco e por Antonio Vicente Seraphim Pietroforte, a publicação vai da prosa ao cordel, de Machado de Assis a escritores anônimos. Com mais esse livro, sobe para nove volumes minha coleção mattosiana - sem falar num CD – “Melopéia” – com sonetos musicados do grande poeta paulistano de Vila Mariana, e que hoje aniversaria.
Autor de milhares de sonetos, a versatilidade literária de Mattoso permite-lhe ainda destaque nacional como contista, ensaísta, lexicógrafo, tradutor, letrista, editor e colunista nas mídias impressa e virtual. Graduado em biblioteconomia e em Letras pela USP, estas qualificações são apenas aditivos ao currículo de Glauco, um sonetista fantástico, com autoridade máxima para assinar sua “Teoria do soneto” e um tratado de versificação intitulado “O sexo do verso: machismo e feminismo na regra da poesia”.
A temática vertiginosa dos sonetos de Glauco Mattoso faz uma espécie de varredura macro e micro do mundo. Da política à ciência, do bairrismo ao cosmopolitismo, em tudo o seu estro transita livremente: as mais complexas nuances da psicologia humana comparecem na sua poética monumental. Como poeta anárquico, mordaz e sarcástico, nem parece ter havido qualquer hiato de tempo entre Gregório de Matos e Glauco Mattoso, pois a crítica impiedosa é uma de suas ferramentas geniais. Já como poeta dito fescenino, poderíamos considerá-lo mais refinado que seu homônimo remoto, Pietro, o Aretino, uma vez que Glauco também é Pedro, sendo Ferreira da Silva. O pseudônimo é um desdobramento do nome da enfermidade que o deixou cego, na década de noventa.
Glauco Mattoso
 Como poeta licencioso, na grandeza de seus sonetos, burilados no melhor calibre da métrica e da rima, o que vulgarmente se chama de pornografia adquire um grau de nobreza. O que mais pesa na literatura mattosiana é a construção impecável de seus poemas, em especial os sonetos de uma estética e plasticidade palpáveis. A rigidez da forma clássica do soneto, nas mãos do poeta ganha uma felixibilidade admirável, fazendo-o encontrar rimas quase impossíveis e cavalgar de um verso para o outro com uma destreza de malabarista. O poeta e literato canindeense Silvio R. Santos chama a atenção para um detalhe na métrica de Mattoso: seus decassílabos, invariavelmente, além da acentuação clássica, têm pausa logo na segunda sílaba, dando ao verso uma cadência especial.
Na prosa, Glauco Mattoso salienta sua habilidade prodigiosa com a construção literária, oferecendo como exemplo seu livro “A planta da donzela”, parodiando famoso romance. Muita vez, rejeita as normas atuais da gramática e emprega a ortografia de 1940. A marca registrada do seu gênio reside exatamente nesse universo de habitantes que têm o raro brilho da ironia sem fronteira e da imaginação inesgotável. O trabalho perfeito do poeta é, certamente, uma joia da literatura brasileira contemporânea, pois é entregue despido de pieguismo – mesmo quando trata do romântico – e isento de hipocrisia – mesmo quando trata da virtude. Glauco Mattoso é tão original, que elegeu o pé como objeto de seus versos, sem todavia contrariar o coração:

“SONETO VICIOSO

Poema lembra amor, que lembra carta,
Que lembra longe, e longe lembra mar,
Que lembra sal, e sal lembra dosar,
Que lembra mão, e mão alguém que parta.

Partir lembra fatia e mesa farta;
Fartura lembra sobra, e sobra dar;
Dar lembra Deus, e Deus lembra adiar,
Que lembra carnaval, que lembra quarta.

A quarta lembra três, que lembra fé;
Fé lembra renascer, que lembra gema,
A gema lembra bolo, e este o café.

Café lembra Brasil, que lembra um lema:
Progresso lembra andar, que lembra pé,
E pé recorda alguém que faz poema.”

No aniversário do poeta, este soneto de sua autoria faz um resumo singular:

“SONETO REMONTANDO A 1951

Minha cronologia principia
no dia de São Pedro. De glaucoma
já nasço portador, mas, nesse dia,
só querem que se beba e que se coma...

Sou neto de italianos, e a mania
é dar diminutivos: no idioma
de Dante, sou Pierin. Me oferecia
um brinde o bisavô, que vinho toma...

Pierin, ou Piergiuseppe, dura pouco.
Já sou Pedro-José. O ouvido mouco
não é, mas um dos olhos já pifava...

Na foto, faço gestos algo obscenos,
unindo dois dedinhos: já pequenos,
mostravam a revolta: ‘Vão à fava!’”  


segunda-feira, 12 de junho de 2017

SONETO

NAMORADOS

Pedro Paulo Paulino

Dois seres quando um dia, por acaso
Ou força de atração correspondente,
Deparam-se na vida, de repente
Sentem brotar o amor em solo raso.

E juntam-se duas flores num só vaso,
De júbilo regadas plenamente,
Pois se lhes torna o tempo, unicamente,
Um renascer de auroras sem ocaso.

Dois seres que se juntam num só ser,
Embora um dia tornem-se isolados
Pelas vicissitudes do viver

Ou mesmo pela morte separados,
Não deixarão, porém, jamais de ser
Aqueles dois eternos namorados.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

CORDEL


O VELHO, O BURRO E A CABRA
ROUBADOS POR TRÊS LADRÕES*

Pedro Paulo Paulino

Três ladrões estavam juntos,
Quando um velho ia passando
Cabisbaixo, com um burro
E uma cabra puxando
Que tinha preso no rabo
Um chocalho badalando.

Um dos ladrões assim disse:
– Eu vou a cabra roubar.
O segundo então falou:
– O burro, vou carregar.
Disse o terceiro: – Esse velho,
Sem a roupa vai ficar.

Dito isto, os três ladrões
Depressa se separaram.
Em lugares diferentes,
Num instante se postaram
E partiram para agir
Do jeito que planejaram.

O primeiro, atrás do velho,
Qual cobra foi rastejando,
Tirou ligeiro o chocalho
Da cabra e foi colocando
No rabo do burro, e o mesmo
Continuou badalando.

Logo mais na frente, o velho
Olhou pra trás, espantado,
Ao perceber que a cabra,
Um ladrão tinha roubado,
Quando avistou um sujeito
No caminho, bem sentado.

– Meu amigo, há pouco tempo
Um gatuno me roubou –
O velho disse ao estranho,
E assim continuou:
– Pois eu trazia uma cabra
E só o burro ficou.

– Meu senhor, há pouco tempo,
Bem ali eu avistei
Um homem com uma cabra,
Era a sua, disto eu sei!  –
O estranho disse ao velho,
Com segurança de rei.

O velho pediu ao homem,
Para o burro pastorar,
Enquanto ele ia atrás
Da cabra recuperar.
O estranho então lhe disse:
– Vá sem se preocupar!

Esse estranho, todavia,
Era o segundo ladrão,
Que só fez pegar o burro
E na mesma ocasião
Fugiu com o animal,
Deixando o velho na mão.

O velho nada encontrou,
Retornou desanimado
E chegando no local
Em que o burro foi deixado,
Percebeu que novamente
Havia sido roubado.

Sem o burro, sem a cabra
E com as mãos abanando,
O pobre homem saiu
Sua sorte lamentando,
Quando avistou outro homem
Lá mais na frente chorando.

Sentado à beira dum poço,
O tal homem se encontrava.
Quanto mais olhava o poço,
Mais o seu pranto aumentava.
O velho então perguntou
Por que tanto ele chorava.

– Meu senhor – eis a resposta –
Eu trabalhei feito um mouro,
Como fruto do trabalho,
Trazia um saco de ouro,
Mas cochilei, e o poço
Engoliu o meu tesouro.

E o pior disso tudo
É que eu não sei nadar –
Disse o homem, soluçando
– Mas dou sem pestanejar
Vinte moedas de ouro,
Quem o saco for buscar.

– Pois pode deixar, que vou
Buscar o seu saco agora! –
Disse o velho bem contente,
E sem a menor demora
Tirou a roupa e pulou
Dentro do poço, na hora.

Era o terceiro ladrão,
Que cumprindo o prometido,
Pegou a roupa e tomou
Destino desconhecido,
Ficando o velho sem burro,
Sem cabra e também despido.

FIM

*Adaptado de um conto de Leon Tolstói.

sábado, 27 de maio de 2017

SONETO

CORES DE MAIO

Pedro Paulo Paulino

É maio. Sobre a terra o sol flameja
Tornando a natureza mais bonita.
Folhas e flores, brando vento agita;
E a terra, ainda úmida, viceja.

Naquele galho, um bem-te-vi habita;
Naquela flor, a borboleta adeja;
Nos ares, uma aragem benfazeja
Em nossa volta, sem cessar, levita.

A floração dos pés de jitirana
Compete, em seu primor, com outras flores
– Talvez com a flor branca da chanana.

Em tudo, mil palpitações de amores,
Pois o sertão inteiro se engalana
Coberto de perfumes e de cores.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

SONETO

PRESO É O POVO

Pedro Paulo Paulino

Quando a justiça, aos brados, alardeia
Que um nome da mais ínclita grandeza,
Por desonestidade e por vileza,
Foi finalmente posto na cadeia,

De dúvida minh’alma fica cheia,
Pois no sangue trazemos a certeza
De que por cá, aos donos de riqueza,
A nossa lei não vale um grão de areia.

Preso é o povo em sua maioria,
Aos ditames do Estado e à impunidade,
Aos deveres fiscais (que covardia!)

E à violência em plena liberdade
Que faz o povo, em sua moradia,
Viver como culpado atrás da grade.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Zé Freire completa hoje, 11 de maio, 80 anos de vida. Reproduzo em sua homenagem esta crônica.


EM VISITA AO ZÉ FREIRE...

Pedro Paulo Paulino


Zé Freire mora numa pequena propriedade rural nos arredores da vila que tem o auspicioso nome de Esperança. Foi ali que há mais ou menos um par de décadas ele resolveu se aboletar, trabalhar e viver. Encontrei-o pela manhã remontando a cerca de varas que o “Sereno”, seu Pégaso indomável, havia derrubado, num rompante próprio dos eqüinos corajosos.

sábado, 6 de maio de 2017

CRÔNICA

O COMPRADOR DE PIRILAMPOS

Pedro Paulo Paulino

A propósito de meu soneto “O vagalume”, aqui publicado, o inspirado amigo Walter Gomes, Vavá, contou-me há dias uma história que vem a ser das mais originais e criativas de uma infância privilegiada. Ouvindo seu relato, não disfarcei meu desejo de que tal história fosse legitimamente minha. Uma vez que não é, adoto-a e passo a recontá-la.
Bem poucos meninos nascidos no interior em tempo mais remoto devem ser que não tenham brincado de aprisionar vagalumes nas noites de inverno no sertão. Confinava-se o inocente inseto em caixa de fósforo ou coisa parecida, para vê-lo piscar.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

CRÔNICA

A RUA DA MINHA INFÂNCIA


Freitas de Assis

Depois de uma semana de muitos afazeres domésticos e resolução de problemas, que graças ao bom Deus existem para que possamos solucioná-los, chega o domingo e o começo bem cedo com uma boa caminhada onde sempre encontro velhos amigos de longa estrada, como o professor Zé Parecido, de minha querida CNEC; o colega dos tempos de vôlei Junior Martins e eventualmente um ou outro companheiro de profissão que madrugam com a mesma intenção que a minha. Depois de chegar a casa e ajudando a esposa nas corriqueiras tarefas domésticas, após o café da manhã começo a ver meu material de trabalho já para a segunda-feira, pois as merecidas férias estão dando um até breve. Uma olhada no cinto de guarnição, uma escovada nos coturnos e demais aparatos do fardamento, companheiros de um quarto de século de minha ingrata profissão, completam a prévia preparação da jornada que se aproxima. Depois tento colocar a leitura em dia.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

RESSURREIÇÃO

RESSURREIÇÃO

Pedro Paulo Paulino

A terra estava já quase sem vida
E panorâmico era o seu martírio.
O sol crestante, como imenso círio,
A cada passo abria uma ferida.

Mas de repente, como num delírio,
Outra paisagem surge colorida,
E o verde sobre a terra renascida
Aos nossos olhos torna-se um colírio.

A fauna e a flora pulsam! Tudo canta!
Nas águas há murmúrios de alegria.
De novo brota vida em profusão.

Do solo, um cheiro brando se levanta.
E a Natureza assim nos anuncia
Mais um milagre de ressurreição.

domingo, 26 de março de 2017

CORDEL


ENGOLIMOS MAIS MENTIRA
OU CARNE COM PAPELÃO?

Pedro Paulo Paulino

Já comemos vaca louca,
Bebemos coca com rato,
Tudo quanto é porcaria
Rebolam no nosso prato.
Sendo assim, por que razão
A carne com papelão
Fez tamanho espalhafato?

Agrotóxico não falta
Na mesa diariamente.
Transgênico todo dia
Na comida está presente.
Por trás de bela embalagem,
O produto é uma miragem
Jogada aos olhos da gente.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

SONETO

QUIXOTISMO

Pedro Paulo Paulino

Quisera ser às vezes Dom Quixote,
De escudo e lança e rígida armadura,
Ir pelo mundo à cata de aventura,
Montado em Rocinante a todo trote;

Velar por minha amada em noite escura,
Fazer de alguma estrela o meu archote,
E ter da fantasia o extremo dote,
Como o da triste, singular figura.

Mas para ser Quixote cavaleiro,
Se por um lado tenho Rocinante,
Por outro lado falta-me escudeiro.

E ainda tendo-os, abandono a ideia
Por falta do não menos importante
Fundamental amor de Dulcineia. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

SONETO

AOS PASSARINHOS

Pedro Paulo Paulino

Mantenho todo dia um ritual
Que intimamente faz-me muito bem:
Arremessar mancheias de xerém
Aos passarinhos livres no quintal.

E logo um bando alegre de aves vem
Pousar, ruflando as asas, no local.
Dentre elas, o canoro cardeal
E os bem-te-vis que ali pousam também.

Se os passarinhos, por sinal, têm crença,
Talvez ser livre seja a crença deles,
E semelhante é nossa recompensa:

Vendo-os libertos de gaiola ou grade,
Identifico-me demais com eles,
Pois é também meu credo a Liberdade.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

TRAGÉDIAS

Pedro Paulo Paulino

A “pátria de chuteiras” veste luto
Às vítimas fatais de Chapecó.
Há pranto, há crepe, desespero e dó,
Em face do sinistro atroz e bruto.

Um clube inteiro e um destino só,
Um sonho rudemente dissoluto
No espaço tão pequeno de um minuto
– E vida e alegria viram pó.

Também na mesma pátria, é madrugada,
Outra tragédia, embora anunciada,
Não menos desastrosa e infeliz,

Ocorre no Congresso às escondidas,
Na forma de propostas e medidas
Contrárias aos destinos do país.