domingo, 31 de dezembro de 2017

ADEUS, ANO VELHO!

Adeus, dois mil e dezessete, adeus!
Com as tuas verdades e utopias;
Com as tuas tristezas e alegrias;
Com minhas emoções e sonhos meus!

Eu agradeço ter vivido os teus
Trezentos e sessenta e cinco dias,
Embora em meio a mil hipocrisias
De um mundo corrompido por sandeus.

De um Ano Novo, a luz já se revela!
O mundo não tem férias e não para,
Girando como eterno caracol...

E a Terra, com a vida a bordo dela,
Está completamente pronta para
Um novo périplo ao redor do Sol.

PPP
31/12/17 

sábado, 30 de dezembro de 2017

O ANO QUE MORRE

Autor: Pedro Paulo Paulino

“Eu sou o Ano que morre
Nas mãos do Tempo que corre,
Morro e ninguém me socorre,
Nem mesmo adianta mais.
Contra as ordens naturais
É sempre em vão insistir;
Não deixem, pois, de assistir
Aos meus instantes finais.

Já vejo meu sucessor
Nascendo qual uma flor,
Cheio de luz e vigor,
Cercado de muita gente.
Vem chegando alegremente
Numa noite barulhenta,
Com trezentos e sessenta
E cinco dias na frente.

Cada dia é como um filho,
Cada ano um andarilho
Que passa através do trilho
Do Tempo eterno e profundo.
Todo ano é oriundo
Da noite e nunca do dia,
Igualmente à maioria
Das criaturas do mundo.

Mas enquanto me despeço,
Neste implacável processo,
Aos homens da Terra peço
Um instante de atenção.
Eu não tenho culpa então
De tudo o que aconteceu,
De quem nasceu ou morreu,
De quem foi feliz ou não.

Fui apenas referência
Num instante da existência
E não tenho consciência
Do que é bom ou ruim.
Uns não gostaram de mim,
Noutros deixarei saudade,
Pois eu sei que a humanidade
Toda a vida foi assim.

Mas vejam que insensatez
Culpar o ano, talvez,
Pelos erros de vocês,
Desse modo assim dizendo:
– O Ano que está morrendo
Foi de perda e agonia,
De crise na economia
E de desmantelo horrendo.

Foi um Ano pessimista
Que matou bastante artista,
Esse Ano entrou pra lista
Dos mais cheios de horrores!
Então direi: – Não, senhores!
Os anos, somos iguais;
Não somos causa, jamais,
Das alegrias ou dores!

Eu não tenho culpa não
De guerra e destruição,
De tanta poluição
Por falta de consciência!
Eu juro em minha inocência,
Que também não sou culpado
De o crime ter aumentado
Por conta da violência!

Sou passageiro fatal
Desta nave sideral
Chamada Terra, na qual
O Tempo é senhor de tudo.
E dito assim, fico mudo,
Pois nessa eterna viagem
O ano é nova embalagem
Para o mesmo conteúdo.

‘Adeus, Ano Velho’, cantam;
Luzes no céu se levantam,
As ilusões se agigantam,
O Ano Bom aí vem
Novinho em folha; porém,
Será velho logo mais
Como eu que um ano atrás
Fui Ano Novo também!”

terça-feira, 26 de dezembro de 2017


Uma cena original
É um jumento com sela
Parado em frente à cancela
Da moradia rural;
Com estribo e peitoral,
Esperando paciente
O dono seguir em frente
Montado no seu “gangão”:
Ainda existe sertão
Como havia antigamente.

PPP
26/12/17

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O JUMENTO E O NATAL


Autor: Pedro Paulo Paulino

Personagem esquecido
Nos festejos de Natal,
Não é homem nem mulher,
Mas um singelo animal
Que conduziu o menino
Jesus Cristo pequenino
Num sagrado ritual.

O jumento, todos sabem,
Transportou com segurança
A Santa Virgem Maria
Que deu à luz a criança
Jesus Cristo iluminado,
Símbolo divinizado
De bondade e de esperança.

Nesse pequeno animal,
A Santa Virgem Maria
E seu esposo José
Passaram na travessia
Que São Lucas descreveu,
E Jesus Cristo nasceu
Dentro de uma estrebaria.

O jumentinho ficou
Na espera do casal,
Pra chegarem na viagem
Ao seu destino final.
Sem nunca os deixar a pé,
O jumento também é
Um emblema do Natal.

Seu lombo tem um sinal
Que alguma coisa traduz,
Um desenho muito claro
No formato de uma cruz
Que segundo Gonzagão,
Não foi outra coisa não,
Foi o pipi de Jesus.

Por ter conduzido Cristo
Em notável trajetória,
O jumento nunca deve
Sair da nossa memória
Nem tampouco dos anais,
Porque dentre os animais
O jumento tem história.

Infelizmente, o jumento
Também é injustiçado,
Por não ter mais serventia
Vive à toa abandonado.
Sem dono e sem proteção,
Muito jegue no sertão
Morre sempre atropelado.

É que da terra distante
Onde o Salvador nasceu,
O jumento servidor
No Nordeste apareceu,
E à custa do seu suor
O sertão ficou melhor
Porque se desenvolveu.

Fez a vez de caminhão
E fez a vez de trator,
De transporte do matuto,
De parteira condutor,
Fez açude e fez estrada...
Jumento, em sua jornada,
Foi bastante servidor.

Como disse Gonzagão,
Fez também até a feira,
Usando em cima das costas
A cangalha e a esteira,
Em escravo convertido;
Também não foi esquecido
Por padre Antônio Vieira.

Se Jesus Cristo voltar,
Como diz o Testamento,
Talvez daqui a mil anos
Ou mesmo a qualquer momento,
A certeza podem ter
Que ele vai aparecer
Escanchado num jumento.

E quem sabe, novamente,
O Nazareno arrebanha
A multidão para ouvir
Novo sermão da montanha,
E ali, mesmo ao relento,
Faça em favor do jumento
Uma bonita campanha.

E talvez discurse assim:
“Meus irmãos, neste Natal
E em todo tempo do ano
Não esqueçam do animal
Que uma vez me transportou
E para sempre ficou
No seu lombo o meu sinal.

O jumento é nosso irmão,
Leal, amigo e fiel,
Seja lá pelo sertão,
Seja lá por Israel...
Deixo aqui aconselhado
Que ele seja mais lembrado
Do que o Papai Noel!”

Portanto, digamos viva!
Ao jumento nosso irmão.
Já disse padre Vieira,
Também disse Gonzagão.
Um deles foi escritor,
O segundo foi cantor,
Porta-vozes do sertão!

O jumento sempre foi
O servidor mais leal,
Auxiliar do matuto
No seu trabalho braçal.
Ao leitor sempre fiel,
Desejo neste cordel
Votos de Feliz Natal!

sábado, 23 de dezembro de 2017

PAPAI NOEL DO MATUTO


Autor: Pedro Paulo Paulino

Doutô, se o sinhô puder
Dar um pouco de atenção,
Cum seu aparêi ligado
Na palma da sua mão,
Escute por dois minuto
Essa fala dum matuto
Do sertão do Ceará,
Pru mode o sinhô sabê
O que eu resolvi fazê
Nessa festa de Natá.

Meu nome é João Pajeú,
Trabaiadô da mão grossa.
Minha vida toda foi
Socado dento da roça,
Trabaiando dia a dia
Junto cum minha famia
Pras banda do Canindé.
Dos setenta já passei
E nunca eu acriditei
Que ixiste Papai Noé!

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017


13 de dezembro, aniversário de Luiz Gonzaga. Em homenagem,
reproduzo as décimas que escrevi no centenário do Rei do Baião, em 2012.

GONZAGÃO CENTENÁRIO

Pedro Paulo Paulino

Salve Sua Majestade,
Gonzaga, Rei do Baião.
Salve treze de dezembro,
Data Magna do Sertão.
Salve Exu tão venerado.
Salve doze, ano sagrado.
Salve, ó dia que trouxeste
Para o povo brasileiro
Gonzagão, o verdadeiro
Embaixador do Nordeste.

Salve o Baião, salve o Xote,
Salve o Coco e o Xaxado.
Salve o fole de oito baixos
Pelo velho pai tocado.
Salve o povo nordestino,
Conselheiro e Virgulino,
Santana e Seu Januário,
O Padim Ciço Romão,
Salve, salve Gonzagão,
Por este seu centenário.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

SONETO

RIO SÃO FRANCISCO

Pedro Paulo Paulino

O rio São Francisco é quem transporta
Do coração da serra para fora
O sangue que dá vida à fauna e à flora
E fornece energia em nossa porta.

Com força de potente artéria aorta,
Aonde vai, seu pulso revigora,
Irriga, fertiliza e traz melhora
Às terras que ele banha e reconforta.

O Velho Chico é sempre o grande braço,
Robusto, inquebrantável, altaneiro,
Unindo cinco estados num abraço!

Em recompensa, o mar hospitaleiro
Recebe gentilmente em seu regaço
O Nilo do Nordeste Brasileiro.

sábado, 18 de novembro de 2017

CORDEL


O DIABO MORRE DE MEDO
QUE O TEMER VOLTE PRA LÁ

Pedro Paulo Paulino

A alma de um paneleiro
Que morreu no Ceará,
Numa sessão outro dia
Conseguiu baixar por cá
E revelou um segredo:
O diabo morre de medo
Que o Temer volte pra lá.

Esse coitado morreu
Ao fazer um panelaço
Vestindo verde e amarelo
Torcendo pelo fracasso,
Totalmente alienado,
Findou sendo atropelado
Por um caminhão de aço.

Ali mesmo no local
No mesmo instante morreu.
Está perto de dois anos
Que o fato aconteceu.
Agora, em algum terreiro
A alma do paneleiro
De repente apareceu.

Paneleiro aqui citado,
O leitor preste atenção,
Não se trata do sujeito
De honrada profissão,
Cidadão trabalhador,
Fabricante ou vendedor
De panela pra fogão.

O paneleiro em questão
É aquele que de dia
Ou de noite vai pra rua
Com a cabeça vazia
Torcer pelo ‘tenebroso’,
Pelo ‘das neves’ seboso,
Bolsonaro e companhia.

Pois bem, esse paneleiro
Que baixou numa sessão
Contou que lá no inferno
Tem duas tropas de cão
Dia e noite se alternando,
Pelas almas esperando
De político ladrão.

Falou que a grande ameaça
Que ronda aquele lugar
E preocupa o capeta
Que vive a se lastimar
Numa tremenda agonia,
É que Temer volte um dia
Pra no inferno mandar.

 “Voltar como? Por acaso
Ele por lá já morou?”
Curioso, um cidadão
Da plateia perguntou.
E a alma, tranquilamente,
Perante um grupo de gente
A falar continuou:

 “Morou, sim. Do mesmo jeito,
Praticando só maldade,
Mentindo e armando truques
E cheio de falsidade,
Com discurso demagogo.
O diabo comeu foi fogo
Na sua propriedade.

Temer, lá, se apresentava
Trajado no mesmo terno,
Querendo mandar em tudo,
Como está no seu caderno.
Matando a democracia,
Queria por que queria
Privatizar o inferno.”

 “Como pôde ele mandar
Lá naquela região?”
Respondeu o paneleiro:
“Amigo, preste atenção,
Que a resposta já vem:
Deu um golpe lá também,
Tomando o trono do cão.

De modo que no inferno,
Segundo eu ouvi contar,
Se já era muito ruim,
Só fez mesmo piorar.
Fracassou de cabo a rabo
E não tinha mais um diabo
Que quisesse lá morar.

Assim como fez aqui,
Por lá, Temer fez também,
Ou talvez até pior:
fez o diabo de refém,
Com seu berro de mandão.
Trabalhava todo cão
Sem receber um vintém.

Os demônios principais,
Outro dia reunidos
Opinavam que o Temer
Foi o pior dos bandidos:
Vendeu por preço irrisório
Metade do purgatório
Para os Estados Unidos.

Naquele dia em que ele
De repente adoeceu,
O inferno por completo
De pavor estremeceu.
É tanto, que depois desta
O diabo deu uma festa
Porque Temer não morreu.”

Assim disse o paneleiro
E depois se evaporou.
Todo mundo que o ouviu
Muito espantado ficou
Interrogando entre si:
“O presidente daqui
Até no cão já mandou?!”

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

CORDEL

A escritora cearense Rachel de Queiroz nasceu em 17 de novembro de 1910, em Fortaleza. Em 2010, por ocasião do seu centenário, publiquei este cordel, premiado em concurso nacional do Ministério da Cultura.


 O CORDEL NO CENTENÁRIO
DA ESCRITORA RACHEL


Pedro Paulo Paulino

Rachel de Queiroz nasceu
No Estado do Ceará,
Filha de família ilustre
Dos sertões de Quixadá.
Seu nome entrou para história,
Das letras é nossa glória,
Na ABL hoje está.

Na Academia de Letras
Rachel de Queiroz fulgura.
Foi a primeira mulher,
Com a vocação mais pura,
A subir o pedestal
Pra se tornar imortal
Na nossa Literatura.

Mil novecentos e dez
Findou cheio de alegria,
Pois foi no mês de novembro
(E dezessete era o dia)
Que com total realeza
Na Capital Fortaleza
Rachel de Queiroz nascia.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

SONETO

É DEODORO, QUE PASSA...*

Pedro Paulo Paulino

Rio de Janeiro. Em cada esquina e praça,
Momentos antes da Proclamação,
Impera um clima de conturbação,
Boato, burburinho e ameaça.

De súbito, perante a grande massa,
Surge imponente o vulto de um varão
Montado em seu cavalo, espada a mão:
É Deodoro, o Marechal, que passa...

Rio de Janeiro. Os anos são passados.
Restos mortais do antigo Marechal
São para outro sepulcro trasladados,

E as cinzas que sobraram da carcaça
Levadas vão em surdo funeral:
É Deodoro, o Marechal, que passa...

_________
*Adaptado de uma crônica do escritor maranhense Humberto de Campos (1886-1934). Mantido o título. 

domingo, 12 de novembro de 2017

SONETO

12 de novembro: 113 anos de morte de Augusto dos Anjos.



AUGUSTO DOS ANJOS

Pedro Paulo Paulino 

Quando Augusto dos Anjos feneceu,
Contando só três décadas de idade,
Nossas letras choraram de saudade
E a própria morte até se entristeceu.

Deixou como maior herança o «EU»
Que o consagrou para imortalidade,
Pois seus versos transmitem, na verdade,
A sensação de que ele não morreu.

A doze de novembro um séc'lo faz
Que Augusto, para sempre, dorme em paz,
Mas entre os homens é seu nome infindo:

Por mais que o tempo eternamente passe,
É como se ele apenas descansasse
Debaixo do seu velho tamarindo...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

SONETO

NOTÍCIAS DO BRASIL

Pedro Paulo Paulino

Brasil está enfermo gravemente.
Maior país da América Latina
À míngua morre, sem uma vacina,
Nas mãos de um ordinário delinquente.

Vitimado de um mal que contamina
Seus órgãos todos virulentamente,
Aos poucos foi passando de doente
Para um estado de total ruína.

Prostrado sobre o leito de UTI,
Já não resiste mais ao bisturi
E vai penosamente definhando...

Apenas os seus olhos moribundos
A custo enxergam os ladrões imundos
Que estão seu patrimônio espedaçando.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

SONETO

VIVOS MORTOS

Pedro Paulo Paulino

Os mortos são também os navegantes
Da embarcação na qual nós viajamos.
Somente ainda nós não alcançamos
O paradeiro a que chegaram antes.

Às vezes, amargamos por instantes
Profunda nostalgia e lamentamos
Que com o tempo todos nós ficamos,
Dos entes que se foram, mais distantes...

Que ledo engano! Errônea fantasia
Pensar assim em relação àqueles
Que já partiram para a campa fria,

Pois nós marchamos sempre rumo a eles;
E à proporção que passa mais um dia,
Vamos ficando é bem mais perto deles.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

SONETO

VIDA... MORTE...

Pedro Paulo Paulino

A vida é uma pequena intermitência
No Nada indescritível de onde vimos;
Parêntese no qual nós possuímos
Aquilo que chamamos consciência.

Por mais que nos opomos, concluímos
Que no breve decurso da existência
Há um ponto final, sem reticência,
E de retorno ao Nada nós partimos.

Pois sendo a vida esse fugaz momento,
E a morte, seu eterno complemento,
Entre uma coisa e outra ninguém há de

Contradizer Voltaire neste conceito:
“Aos vivos, nós devemos o respeito;
Aos mortos, nós devemos a verdade”.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

DIA DO SACI


O SACI NÃO SE APOSENTA,
MESMO SENDO UM MUTILADO

Pedro Paulo Paulino

O Saci é quem governa
A floresta, a natureza.
Essa missão, com certeza,
Será para sempre eterna.
Embora falte uma perna
E por lei seja amparado,
Se ele for aposentado
O folclore se arrebenta:
O Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

Estando embora na ativa,
Já tem bruxa por aí
Querendo que do Saci
Apague-se a lenda viva!
Mas, da cultura nativa
Jamais será apagado
Esse moleque adorado
Que o folclore representa:
O Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

Pulando na perna só,
Essa amável criatura
Já fazia travessura
Para minha tetravó.
Na caatinga entre o cipó
O Saci é encontrado,
Assim como em todo estado
Sua lenda se sustenta:
O Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

Fugindo um pouco do mato
Foi para a literatura
Como importante figura
Para Monteiro Lobato.
Não vamos deixar barato
O Saci ameaçado
De perder o seu reinado
Para uma bruxa nojenta,
Pois Saci não se aposenta,
Mesmo sendo um mutilado.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

CORDEL


O PINTO DO PRESIDENTE
ACABOU PAGANDO O PATO

Pedro Paulo Paulino

No Distrito Federal,
O mundo está revirado,
Tem um prato para cima
E tem um prato emborcado.
Contra o povo brasileiro,
Todo dia, o ano inteiro,
Cada prato está lotado.

Lotado de delinquentes
Da nossa democracia
Que levam tudo de eito,
Com as leis à revelia.
A Capital Federal
Se transformou, afinal,
No reino da putaria.

Na quarta-feira passada,
No meio do triste ato
De uma votação imunda,
Houve de repente um fato,
Para ninguém comovente:
O pinto do presidente
Acabou pagando o pato.

O xerife Tenebroso
Acompanhava entretido
Os discursos dos seus pares,
Cada qual o mais bandido;
Sentiu a coisa apertar
E quando foi urinar,
Seu pinto estava entupido.

Naquele grande sufoco,
Tentava, não conseguia.
Espremeu-se, fez esforço,
Mas a coisa não saía.
E quanto mais pelejava
E mais o tempo passava
Mais o seu pinto entupia.

O Tenebroso esqueceu
Seu autoritário estilo,
E começou a chamar
Pessoas para acudi-lo.
Foi levado à enfermaria,
Mas quem era que queria
Chegar nem perto daquilo.

Para discutir o caso,
Fizeram mesa redonda.
Pra salvar o Tenebroso
Daquela coisa hedionda,
Foi chegada a conclusão
De que melhor solução
Era lhe meter a sonda.

Foi de maneira forçada
Que resolveu consentir.
Um torçal logo trouxeram,
Mas quem quis se garantir,
Num momento como aquele,
De pegar a ‘coisa’ dele
Para a sonda introduzir?!

Tenebroso então falou,
Com seu jeito autoritário:
“Corram logo e vão chamar
Um correligionário
Que me salve desse aperto;
Os outros, conforme acerto,
Me salvam lá no plenário.

Chamem o Valdir Colatto,
Ou por outra, Alceu Moreira;
 Chamem o José Fogaça,
Ou mesmo Mauro Pereira.
E se tiver ocupado,
Chamem Simone Morgado
Ou o Ronaldo Nogueira.

Chamem lá do Ceará
Deputado Genecias,
O Ronaldo e o Aníbal,
Que são minhas companhias;
Chamem o Danilo Forte,
Pois com eles, tenho sorte
De sair das agonias;

Chamem o Gomes de Matos,
Chamem Gorete Pereira,
Moses e Domingos Neto,
Chamem Vaidon  Oliveira
Ou deputado Macedo
Pra desentupir sem medo
A minha velha torneira!”.

Enquanto lá no plenário
Pegava fogo a “prissiga”
Da corja de deputados
De todos nós inimiga,
Lá fora, até o “tinhoso”
Ajudava o Tenebroso
Esvaziar a bexiga.

A bexiga esvaziou-se,
Mas o Brasil segue cheio
De pilantras desonestos,
Ladrões do dinheiro alheio
Que roubando nosso erário
Deixa o povo e o operário
Sofrendo grande aperreio.

Urina presa tem jeito,
Embora provoque dor.
A medicina, faz tempo,
Corrige esse dissabor.
Não tem jeito verdadeiro
É o povo brasileiro
Preso à mão de um ditador.

A ninguém nunca desejo
Que mal algum aconteça,
Mas o senhor Tenebroso
Duma coisa não esqueça,
Pois conforme o que pressinto,
Nunca mais seu velho pinto
Vai levantar a cabeça.